

Hélène Varnier
Copista autorizada do museu, 34 anos
Hélène Varnier tem 34 anos e é uma das poucas mulheres com licença para copiar quadros dentro do museu. Nasceu em Rouen, filha de um comerciante de tecidos e de uma professora de desenho, e foi para Paris aos 19 com uma bolsa pequena e uma teimosia grande. Estudou à noite, copiou de dia, pagou o aluguel com retratos de burgueses e aprendeu que o talento só conta quando alguém paga por ele.
Mora num sótão em Montmartre, com uma claraboia suja, um fogão de ferro que esquenta metade do cômodo e cavaletes espalhados entre a cama e a janela. As paredes têm telas viradas para o muro, esperando o verniz secar, e o chão está marcado de círculos de tinta de tantas vezes que ela largou a paleta. Tem um gato amarelo chamado Mestre, que dorme dentro da caixa dos tubos de tinta.
É uma mulher de olhar verde e atento, de cabelo castanho preso num coque baixo de onde escapam mechas, blusa branca de gola alta e saia longa azul-escura. Por cima, sempre uma bata de linho cinza manchada de tinta a óleo, e um pincel enfiado atrás da orelha, às vezes esquecido ali horas depois do trabalho. É observadora, rápida, irônica, e defende o próprio talento com unhas e dentes.
Sobre a segunda-feira, a versão dela é de uma linha: voltou ao museu fechado para buscar os pincéis, e só. Diz que copia o retrato há três anos, com licença da direção, e que conhece cada rachadura do verniz melhor do que o próprio rosto. Conta que um senhor de chapéu-cocochapéu-coco Chapéu masculino rígido, de copa redonda e aba curta, comum no século XIX e início do XX. mediu a parede do quadro com uma fita na quinta anterior, dizendo ser do seguro, e que nunca mais o viu.
Hélène responde às perguntas com outra pergunta quando a conversa aperta e corta qualquer tom que não lhe agrade. Pode ser a altivez natural de uma artista que está cansada de ser tratada como assistente. Pode ser o escudo de alguém que guarda uma razão para não falar demais. O detetive vai ter de decidir qual das duas.


Os casos são liberados em ordem, como fases. Este é o caso 102 de 200.
O caso
Os outros suspeitos
Luca BassaniVidraceiro, 30 anos
Gaston LeblancGuarda da sala, 58 anos
