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A casa de laje em Itaquera, com o santo de gesso no nicho da cozinha
Gerson Tavares

Gerson Tavares

Motorista de Teodoro Bastos, 46 anos

Gerson Tavares tem 46 anos e há seis dirige o carro de Teodoro Bastos, o publicitário de quem todos falam na agência com voz baixa. Nasceu em Caruaru, em Pernambuco, filho de um feirante e de uma lavadeira, veio para São Paulo aos 17 num ônibus de três dias e começou como ajudante de entregador. Foi motorista de táxi, de caminhão de frete e de uma família de Moema, antes de ser contratado pela agência. Chama todo mundo de doutor, inclusive quem não é.

Mora com a mulher e a filha numa casa de dois cômodos e laje em Itaquera, na Zona Leste, a duas horas de ônibus do trabalho nos dias de trânsito ruim. A cozinha tem um fogão de quatro bocas, uma mesa de fórmica com toalha de plástico, uma televisão pequena sobre a geladeira e um santo de gesso no nicho da parede. Acorda às 4h30, toma café com pão na chapa e deixa o terno passado na véspera pendurado atrás da porta.

É baixo e robusto, de rosto largo, pardo, com um bigode preto aparado e o cabelo crespo curto com entradas. Hoje traz um arranhão fresco na testa, a camisa social branca amassada e suja de poeira na manga e a gravata preta afrouxada. Segura um quepe de motorista de lona nas mãos grossas, que ele gira devagar quando fala. É humilde, leal ao patrão, fala pouco e ainda está abalado, com a voz que treme no meio das frases.

Sobre a abordagem, conta que duas quadras depois da agência havia sirene e cone na rua, homens de colete da Federal mandando encostar, que o puxaram pela janela e o jogaram na calçada e que, quando se levantou, o doutor Teodoro já ia dentro de um Santana escuro. Um dos homens falava enrolado, com sotaque de castelhano. Explica que o blindado ficou na oficina desde a segunda, por um barulho no freio, a pedido do gerente, e que ele dirige aquele carro há seis anos e nunca ouviu barulho nenhum.

Gerson sabe que o motorista que parou o carro é quem se pergunta se parou por vontade. Quando o detetive diz que entregou o patrão, ele gira o quepe mais devagar, a voz embarga e lembra que foi jogado no asfalto e que carregou o doutor e os filhos dele por seis anos. Dor de homem leal humilhado duas vezes, ou lealdade como a melhor cobertura: o quepe que gira não se decide.

O quepe de motorista de lona que ele gira nas mãos
O quepe de motorista de lona que ele gira nas mãos
A gravata preta, sempre afrouxada no fim do dia
A gravata preta, sempre afrouxada no fim do dia
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Os casos são liberados em ordem, como fases. Este é o caso 200 de 200.

O caso

Os outros suspeitos