

Margaret Ashby
Produtora do programa de Emil na rádio, 44 anos
Margaret Ashby tem 44 anos e produz, há doze, o programa semanal de um exilado que fala para o outro lado da cortina de ferro. Nasceu em Leeds, filha de um sapateiro e de uma telefonista, e começou na rádio atendendo ligações de ouvintes numa estação regional. Passou por três emissoras antes de chegar ao serviço internacional em Londres, onde aprendeu que um bom produtor é aquele que ninguém ouve e sem quem nada vai ao ar. Corta uma frase com o mesmo movimento com que corta um fio.
Mora num apartamento pequeno em Islington, no segundo andar de um prédio vitoriano, com uma sala onde o toca-discos e a máquina de escrever disputam a mesma mesa. Tem plantas que sobrevivem por teimosia, um cinzeiro de vidro que ela esvazia toda noite e uma pilha de fitas rotuladas com a letra apertada dela. Almoça de pé, janta tarde e deixa o rádio ligado mesmo quando está lendo. A vizinha de baixo diz que nunca ouviu um barulho de festa ali em dez anos.
Tem o cabelo castanho-avermelhado em ondas curtas, o delineador forte que ela refaz no espelho do estúdio e a pele clara, marcada por noites mal dormidas. Usa um casaco de lã vermelho sobre um suéter de gola alta preto, um fone de ouvido de estúdio pendurado no pescoço e um cigarro apagado entre os dedos, que ela segura mais do que fuma. Fala como quem cronometra um programa ao vivo: frases secas, sem enfeite, e o fim de cada uma é um corte.
Sobre a quinta-feira em que o apresentador morreu, a versão dela é a de produtora: ele chegou à rádio às 18h30, mancando e rindo de si mesmo, e contou que sentira uma picada atrás da coxa enquanto esperava o ônibus. Ela acha que vão chamar de acidente. Sobre o programa, o dever de casa dela é lembrar que as crônicas semanais falavam de ministros do outro lado com nome, sobrenome e vida privada, e que o governo de lá chamava isso de traição.
Margaret sabe que quem produz o programa conhece o horário, a rota e o humor de quem apresenta, e que isso sozinho já pesa. Quando o detetive pergunta quem ameaçava o Emil, ela responde que todo exilado que fala no microfone recebe cartas sem assinatura e telefonemas mudos. Pode ser a objetividade de quem viu isso muitas vezes. Pode ser alguém que corta a conversa para não ter de continuar nela. O detetive vai ter de decidir qual das duas.


Os casos são liberados em ordem, como fases. Este é o caso 124 de 200.
O caso
Os outros suspeitos
Anselm KesslerRepresentante de uma fábrica de peças de relojoaria de Viena, 41 anos
Vernon PikeTaxista do ponto da cabeceira sul da ponte, 58 anos
