Confessd
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A cozinha da casinha de tijolo à beira da linha, perto de Japeri
Valdir Rocha

Valdir Rocha

Guarda-linha do trecho do km 68 ao 74, 41 anos

Valdir Rocha tem 41 anos e há dezesseis cuida do trecho do km 68 ao 74 como se a linha fosse dele. Nasceu em Paracambi, filho de um trabalhador de turma da ferrovia, e cresceu ouvindo o apito dos trens antes do galo. Entrou na Estrada de Ferro aos 25, carregando dormente, e virou guarda-linha porque era o homem que mais andava e menos reclamava. Conhece cada marco, cada bueiro e cada barranco que desce com a chuva.

Mora numa casinha de tijolo à beira da linha, perto de Japeri, com a mulher e três filhos, onde o fogão a lenha fica aceso desde as cinco da manhã. Na parede da cozinha, o uniforme do dia seguinte espera pendurado num prego, ao lado de um calendário de santo e de uma moringa de barro. Aos domingos, conserta rádio de vizinho de graça e diz que não sabe dizer não a quem pede ajuda.

É alto e forte, negro, de cabelo crespo curto com fios brancos nas têmporas, bigode fino e o rosto marcado de sol. Usa o uniforme cáqui da ferrovia, desbotado de tanto sol e sabão, um bonezinho de pala e um lenço vermelho no pescoço que a mulher lava toda noite. Fala devagar, com voz calma, e sempre oferece ajuda antes que peçam, como quem quer ser o homem mais útil da linha.

Sobre a manhã do assalto, a versão dele é a de um homem longe da curva: estava no km 64, longe da curva, com a turma que trocava dormente, ouviu o estrondo de longe e veio correndo pela linha. Diz que chegou quando já não havia mais ninguém para ajudar. Repete que cuida de trilho, não de dinheiro, e que a folha dos ferroviários nunca passou pelas mãos dele. Com a curva no meio do mato e o bando sumido na poeira, ninguém consegue confirmar com certeza onde cada um estava naquela manhã.

Valdir sabe que o guarda-linha do trecho é quem melhor conhece a curva onde o trem diminui a marcha. Quando o detetive pergunta se ele ajudou o bando a parar o trem, a calma endurece: ele lembra os dezesseis anos cuidando da linha e pede que o perguntem de novo quando houver um papel na mão. Pode ser a mágoa de um trabalhador honesto tratado como bandido. Pode ser alguém prestativo demais para ser só isso. O detetive vai ter de decidir qual das duas.

O lenço vermelho que a mulher lava toda noite
O lenço vermelho que a mulher lava toda noite
O bonezinho de pala do uniforme cáqui da ferrovia
O bonezinho de pala do uniforme cáqui da ferrovia
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Os casos são liberados em ordem, como fases. Este é o caso 115 de 200.

O caso

Os outros suspeitos